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Todos os dias, um velhinho, já bem corcunda devido a idade, carregava um enorme feixe de lenha. Ele não gostava de fazer isso, por esse motivo reclamava o tempo todo. Falava muito, praguejava, mas carregava o feixe.
Um dia, entretanto, decidido a morrer, bradou:
- Vem, ó, morte! Tu que andas pelo mundo a ceifar criancinhas inocentes, em vez de fazer isso, vem me buscar!
É claro que ele disse isso tudo sem a menor intenção de que a Morte viesse. Mas ela veio e, movendo os ossos e acendendo os olhos, falou:
- Chamaste-me, aqui estou.
De início, o velhinho tremeu o corpo todo, mas depois, enchendo-se de coragem, se recompôs. Olhou bem para a caveira à frente dele, pensou rápido e depois falou firmemente:
- Chamei-te sim! Mas pra me ajudar a botar este feixe danado de pesado nas costas.

criado por José Guimarães
22:47:18O Convite
Ainda não fazia um ano que Jovino mudara-se para uma casa ao lado da nossa. Entretanto, ele já despertava em quase toda a vizinhança bastante respeito e seriedade. Isso fez com que ficasse logo conhecido de todo o pessoal do pequeno bairro onde morávamos. Era de uma presteza sem igual e sabia despertar nos outros grande confiança. Foi dessa forma que Arlindo, meu irmão, o conhecera na construção onde trabalhavam. Meu irmão era ajudante de pedreiro e ele, carpinteiro. E foi exatamente por intermédio de meu irmão que ele tornou-se nosso vizinho. Gabava-se de ser do sertão cearense, “terra em que não chove e o mato é verde”, e orgulhava-se de ter viajado sempre de graça, para onde quer que fosse. Até de avião.
- Que sujeito mais cara de pau! – alfinetavam-no uns.
- Qual nada, Seu! Esse é que sabe levar a vida – elogiavam-no outros.
- Ixe! Isto aí tá é me revelando um possante dum contador de vantagem!
E por aí afora as opiniões divergiam.
Era uma figura pra lá de esquisita: zarolho, baixinho, falador, feioso, destemido, porém nada briguento. Longe disso, era brincalhão e contador de histórias. Para uns, um louco. Para outros...
Nessa época estavam construindo uma usina hidrelétrica no Rio da Casca.
Jovino convidou-me para ir com ele, para lhe servir de companhia.
Eu não queria ir, mas confesso que fiquei entusiasmado com minha primeira viagem, visto nunca ter arredado o pé de nossa cidade (Cuiabá-MT). E por que não me emocionar com a primeira viagem? A primeira investida rumo ao desconhecido? Você sente o tamanho de minha emoção? Juro que era grande. Se bem que estivesse longe de imaginar que minha primeira viagem seria uma odisséia. Porque Jovino jurara de pés juntos que retornaríamos ao anoitecer e eu nele cri. Por isso achei que tudo transcorresse bem.
Achei!
Texto extraído do livro Companheiro de Viagem.
Papel Virtual Editora – 2ª edição.

criado por José Guimarães
16:44:59Um enorme peixe pulou da água e caiu bem perto de um jovem pescador.
O pescador, que não tinha pescado nada ainda, mais que depressa pulou sobre o peixe e enterrou nele uma faca, na lateral, onde fica a guelra, forçando para que entrasse mais fundo.
O peixe se debateu.
“Você me veio de graça”, disse o pescador a si próprio. “E deve valer uma nota.”
Virou o peixe de lado para poder abrir a barriga dele. O peixe se contorceu de dor e gritou:
- Não me mate! Não me mate! Eu sou seu irmão!
- Meu Deus!
Mas já era tarde.
De fato, o irmão gêmeo do pescador havia desaparecido havia muito tempo e, apesar de a família o procurar por todos os meios de comunicação que existia na época, jamais o localizara.
O pescador arrepiou-se.
Largou o peixe. Este se contorceu. Bateu as nadadeiras e o rabo desesperadamente no chão, depois explicou ao irmão:
- Você se lembra que a gente brincava na baía quando éramos pequenos?
- Eu me lembro sim.
- Então, um dia eu fui lá sozinho e encontrei o espírito do mar, que me transformou em peixe. E desde então parei de falar e de pensar como gente.
- Nossa, mano, procuramos vocês em toda parte. Você não pode morrer agora.
- Espera, deixa-me continuar a história...
O pescador se derretia em lágrimas. Chorava tanto que nem conseguia prestar atenção ao que o irmão falava.
O que você acha desta história? Acha que devo continuá-la ou deletá-la?
No caso de continuar, que fim você acha que ela deveria ter?

criado por José Guimarães
08:58:10Minha curiosidade foi despertada logo cedo, quando passou por mim um carro que trazia escrito no vidro traseiro: VELÓRIO DO BOI e umas letrinhas mais que não consegui entender bem do que se tratava.
"O que será isso?", pensei. "Será uma brincadeira macabra?"
Mais tarde, quando conversava com Durval, motorista de táxi, no centro de Pouso Alegre, vi um Corsa estacionado na calçada contrária, contendo a mesma frase.
- Já é o segundo carro que vejo hoje que tá escrito aquilo - disse eu, mostrando o carro para Durval. - Sabe o que significa?
Durval olhou para o carro, depois para o chão, pensou, pensou...
- Ói, s'eu te disser que não sei é porque não sei mesmo! Sei lá que significa esse troço!
No Corsa, além de VELÓRIO DO BOI, havia uma data, que aguçou ainda mais minha curiosidade, mas mesmo assim não tive ânimo de ir lá para ver.
Nisso passou outro carro, contendo a mesmíssima frase.
Como Durval, que geralmente sabe de tudo, disse que não sabia, concluí que só podia ser uma festa estudantil, dessas bem loucas. Desse assunto o Durval não entende. Ou então uma propaganda. Mas propaganda do quê? De algum produto relacionado a enterro? E que velório é esse que tem data certa para acontecer? Minha mente me levou diretinho ao "Festim Diabólico", de Alfred Hitchcock, onde um grupo de jovens... Bem, não vou contar esse filme aqui.
Entretanto, continuei conjeturando. Seria uma brincadeira tipo "Farra do Boi", em que os participantes perseguem um boi previamente escolhido até matá-lo? E, altas horas da noite, feitos canibais, degustam, ou melhor, devoram a carne ainda crua do coitado, que se mexe, porque ainda não morreu, tentando escapar?
Argh!
"Acho melhor esquecer esse assunto", pensei. Porém, mais tarde, quando nem pensava mais nisso, ao folhear um jornal local, li na coluna de eventos a palavra BARBECUE e, mais adiante:
"O boi morreu... E daí? Você vai ficar com pena dele?"
E informavam:
"O velório será no dia tal, rua tal, número tal".
"Ah, então é isso? É um convite?" E ri de mim mesmo por ter enfim esclarecido tão duvidoso assunto (duvidoso pra mim, claro, porque a rapaziada, talvez, não tivesse outro assunto).
Contudo, continuei achando que seria um festim diabólico, daqueles em que os assassinos comemoram a vitória na frente do morto. E degustam a carne dele, neste caso, do boi. Coitado do boi. Por que será que ele se fez de vítima?
Entretanto, quem iria participar de um ritual tão macabro desses? E que boi seria escolhido para esse ritual? Seria o mais valente ou o mais manso? Não sei não, talvez o mais jovem, por ter a carne tenra e saborosa. Humm, que delícia! Carne assada, né?, se você pensou em outra coisa.
Bom, como eu já estava atolado no assunto, consultei o Michaelis:
"Barbecue 1. grelha 2. rês assada por inteiro 3. churrasco 4. churrascada 5. Bras. churrasquear.
Ah, é? Eu não sabia nada disso. Você sabia?
Adiante, a turma do boi no rolete explicava que o grupo não-sei-de-onde promoveria uma festa inédita na cidade, em que um boi de 20 arrobas seria assado inteirinho num rolete, na noite de sábado, para ser traçado no domingo. Isso mesmo, traçado. Quer dizer, devorado, ou numa linguagem mais educada: degustado. Como ou com quê? Não sei. Só sei que eu não parava de visualizar o velório. Sempre em busca de um final em que o boi levasse vantagem, em vez de a turma do rolete.
E você? Que final imaginaria?
Eu imaginei assim:
Altas horas da noite, boi de couro e tudo sobre a mesa, um dos rapazes já bastante bêbado diria que viu o boi abrir o olho e piscar para ele.
- Oooohhh!!!! - diriam.
É claro que ninguém acreditaria no rapaz. Todo mundo iria zombar dele. E o coitado ficaria danado da vida, querendo brigar.
Daí, diriam que ele estava tendo delírio - por tomar porre pela primeira vez.
Mas, antes de a risada terminar, outro adolescente diria que também viu o boi piscar o olho para ele. Agora seriam dois.
Depois, mais outro. Três.
Os demais estudantes continuariam rindo, entortando a coluna de tanto rir.
Até que por fim o boi abriria os olhos e olhava zangado para todo mundo. Depois se levantaria e sairia correndo na direção do grupo.
Não ficaria um para ver (ou saber) o final desta história!
José Guimarães, Pouso Alegre-MG

criado por José Guimarães
08:42:48