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Um dia, num dos amplos corredores do Hospital das Clínicas (SP), dei o braço a uma cega que me pediu para acompanhá-la a um determinado guichê para ela marcar um exame.
Disse-me no caminho, sempre sorrindo, que morava como clandestina nos Estados Unidos. Ao saber que ficaria cega, decidiu voltar ao Brasil, sua terra natal.
- Doente, a gente tem de ficar na terra da gente, não acha?
Nem soube o que responder.
Só fiquei pensando em:
Como uma pessoa que antes enxergava tão bem e agora não enxerga nada se sente? E que faria eu se estivesse no lugar dele.
Eu estava eu ali em busca do diagnóstico de uma doença, que me persegue há anos. Ela, para marcar o exame de um velho que disse trabalhar num sítio de freiras e que tem uma doença que eu acabara de tomar conhecimento minutos antes, num dos ambulatórios do mesmo hospital, chamada Miastenia.
Miastenia? Eu juro que nunca tinha ouvido falar nessa doença. E os sintomas? Ah, os mais absurdos possíveis. E o diagnóstico, então... coitados dos doentes...
Fiquei então com pena do velhinho. Quem sabe ele sofria mais que eu.
- O problema é que ele não quer fazer nada – disse a mulher. – A freira diz que é pra ele cuidar do jardim, fazer serviço leve, mas nem isso ele quer fazer.
Fiquei imaginando se tivesse também que fazer algum trabalho forçado, com dor constante e desequilíbrio no corpo, como me sentiria?
Não sei não, fiquei com muito dó do velho.

criado por José Guimarães
22:06:06