DIÁRIO DE UM ESCRITOR

Livros grátis, Blogs, Buscadores, Cursos, Jornais, Rádios, Revistas e Sites.

DIÁRIO DE UM ESCRITOR

Livros grátis, Blogs, Buscadores, Cursos, Jornais, Rádios, Revistas e Sites.
<  Outubro 2006  >
S T Q Q S S D
            1
2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15
16 17 18 19 20 21 22
23 24 25 26 27 28 29
30 31          
Receba os posts
Terra Blog

Arquivo de: Outubro 2006, 27

27.10.06

O Lavrador e as rolinhas

categorias: Cotidiano

As rolinhas vinham todos os dias ciscar no quintal do lavrador.

Ele colocava  farelo de milho no chão e  ficava observando o comportamento delas. Notou que brigam muito umas com as outras.

"Por que elas brigam tanto", perguntou ele intrigado a si próprio, "se tem milho para todas"?

Não soube responder.

Como se não tivesse nada que fazer, continuou sua observação. Aí ficou mais intrigado ainda, porque as rolinhas, além de brigarem umas com as outras, ainda atacavam os pardais, covardemente.

Por serem maiores, têm mais força. Os pardais, bobinhos e fraquinhos, deveriam fugir delas. Mas não, parece que ficam mais próximos, decerto em busca de proteção. 

O bico comprido e fino das rolinhas o incomodam. Por que as rolinhas têm bico comprido e fino e os pardais não?

Muitas perguntas, poucas respostas.

Contudo, continuou sua observação, como um autêntico ornitólogo. Assim, certa manhã, colocou farelo em dois lugares diferentes.

Não demorou muito vieram duas rolinhas. Havia bastante farelo ali. Mas  uma expulsava a outra.

"Incrível", pensou o lavrador. "Até na natureza existe egoísmo. Coloquei farelo para todas as aves em lugares diferentes e agora aquela rolinha valentona tomou posse dele e pensa que é só dela."

Não bastando isso, viu a rolinha egoísta bicar um pardal e este dar um pio tão longo e dolorido que mais parecia um pedido de socorro. E ele (o lavrador) não podia fazer nada para ajudar a pequena vítima. 

"Isso é demais!", se irritou. "Vou castigar essa rolinha metida a valentona!"

Então pensou matar a rolinha briguenta. Assim acabava com a tirania dela.

"Mas, peraí. É assim também com os homens", pensou ele. "Deus dá para todos, mas só uns querem tomar posse. E Deus não sai por aí matando homens que não se comportam direito. Deixa que cada um viva como quer."

Concluiu que, se Deus que é Onipotente não sai por aí matando homens egoístas, muito menos ele deveria matar a rolinha.

Por outro lado, ela morreria sem saber o motivo.

Muito bem. Sua preocupação agora seria proteger os pardais.

Noutro dia ele colocou farelo bem perto dele e ficou torcendo para que os pardais o encontrassem. Assim, as rolinhas tiranas e brigonas (elas brigavam tanto umas com as outras que nem conseguiam comer direito) não atacariam os pardais. Alguns deles - as donas pardocas - com filhotes, trêmulos, necessitando ser alimentados pela mãe, se levassem uma bicada afiada no olho poderiam até morrer.

Para a felicidade dele, os pardais encontraram a ração e a comeram fartamente. Ele não precisou mais ficar intrigado com as rolinhas.

"Os pardais foram expulsas de lá", sorriu o lavrador,  "mas ganharam um quinhão ainda maior que as rolinhas briguentas e mais perto de mim" .

Depois concluiu:

"Assim deve ser  Deus para com os homens: quando uns são expulsos do paraíso por causa de ganância de outros, se em vez de alimentarem seus ódios e brigar fugirem em busca de novo paraíso, certamente o encontrarão. Bem mais perto do Criador, que os protegerá, mais que àqueles que os expulsaram de lá."

Tenha um bom dia!

José Guimarães, Pouso Alegre-MG

mokoloton@terra.com.br