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Minha curiosidade foi despertada logo cedo, quando passou por mim um carro que trazia escrito no vidro traseiro: VELÓRIO DO BOI e umas letrinhas mais que não consegui entender bem do que se tratava.
"O que será isso?", pensei. "Será uma brincadeira macabra?"
Mais tarde, quando conversava com Durval, motorista de táxi, no centro de Pouso Alegre, vi um Corsa estacionado na calçada contrária, contendo a mesma frase.
- Já é o segundo carro que vejo hoje que tá escrito aquilo - disse eu, mostrando o carro para Durval. - Sabe o que significa?
Durval olhou para o carro, depois para o chão, pensou, pensou...
- Ói, s'eu te disser que não sei é porque não sei mesmo! Sei lá que significa esse troço!
No Corsa, além de VELÓRIO DO BOI, havia uma data, que aguçou ainda mais minha curiosidade, mas mesmo assim não tive ânimo de ir lá para ver.
Nisso passou outro carro, contendo a mesmíssima frase.
Como Durval, que geralmente sabe de tudo, disse que não sabia, concluí que só podia ser uma festa estudantil, dessas bem loucas. Desse assunto o Durval não entende. Ou então uma propaganda. Mas propaganda do quê? De algum produto relacionado a enterro? E que velório é esse que tem data certa para acontecer? Minha mente me levou diretinho ao "Festim Diabólico", de Alfred Hitchcock, onde um grupo de jovens... Bem, não vou contar esse filme aqui.
Entretanto, continuei conjeturando. Seria uma brincadeira tipo "Farra do Boi", em que os participantes perseguem um boi previamente escolhido até matá-lo? E, altas horas da noite, feitos canibais, degustam, ou melhor, devoram a carne ainda crua do coitado, que se mexe, porque ainda não morreu, tentando escapar?
Argh!
"Acho melhor esquecer esse assunto", pensei. Porém, mais tarde, quando nem pensava mais nisso, ao folhear um jornal local, li na coluna de eventos a palavra BARBECUE e, mais adiante:
"O boi morreu... E daí? Você vai ficar com pena dele?"
E informavam:
"O velório será no dia tal, rua tal, número tal".
"Ah, então é isso? É um convite?" E ri de mim mesmo por ter enfim esclarecido tão duvidoso assunto (duvidoso pra mim, claro, porque a rapaziada, talvez, não tivesse outro assunto).
Contudo, continuei achando que seria um festim diabólico, daqueles em que os assassinos comemoram a vitória na frente do morto. E degustam a carne dele, neste caso, do boi. Coitado do boi. Por que será que ele se fez de vítima?
Entretanto, quem iria participar de um ritual tão macabro desses? E que boi seria escolhido para esse ritual? Seria o mais valente ou o mais manso? Não sei não, talvez o mais jovem, por ter a carne tenra e saborosa. Humm, que delícia! Carne assada, né?, se você pensou em outra coisa.
Bom, como eu já estava atolado no assunto, consultei o Michaelis:
"Barbecue 1. grelha 2. rês assada por inteiro 3. churrasco 4. churrascada 5. Bras. churrasquear.
Ah, é? Eu não sabia nada disso. Você sabia?
Adiante, a turma do boi no rolete explicava que o grupo não-sei-de-onde promoveria uma festa inédita na cidade, em que um boi de 20 arrobas seria assado inteirinho num rolete, na noite de sábado, para ser traçado no domingo. Isso mesmo, traçado. Quer dizer, devorado, ou numa linguagem mais educada: degustado. Como ou com quê? Não sei. Só sei que eu não parava de visualizar o velório. Sempre em busca de um final em que o boi levasse vantagem, em vez de a turma do rolete.
E você? Que final imaginaria?
Eu imaginei assim:
Altas horas da noite, boi de couro e tudo sobre a mesa, um dos rapazes já bastante bêbado diria que viu o boi abrir o olho e piscar para ele.
- Oooohhh!!!! - diriam.
É claro que ninguém acreditaria no rapaz. Todo mundo iria zombar dele. E o coitado ficaria danado da vida, querendo brigar.
Daí, diriam que ele estava tendo delírio - por tomar porre pela primeira vez.
Mas, antes de a risada terminar, outro adolescente diria que também viu o boi piscar o olho para ele. Agora seriam dois.
Depois, mais outro. Três.
Os demais estudantes continuariam rindo, entortando a coluna de tanto rir.
Até que por fim o boi abriria os olhos e olhava zangado para todo mundo. Depois se levantaria e sairia correndo na direção do grupo.
Não ficaria um para ver (ou saber) o final desta história!
José Guimarães, Pouso Alegre-MG

criado por José Guimarães
08:42:48